quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Existênciário


Consumimos os dias em degladio. Gáudio do ego este circo de "panem et circensis" das almas. Comanda o ror das emoções e frustrações. Sería isto tudo antítese o morrer em silêncio, passar incólume e fugazmente na travessia da vida; acossado como uma besta que não reconhece a sua irracionalidade. Ao invés, exprimimos a essência do ser na diversidade que custará sempre aos outros entender. Os que buscam a identificação, as tribos, a idolatração, sairão sempre e rapidamente desiludidos e gorados aos primeiros sinais de incompreensão do outrem.
A diversidade é o que nos une. É o gerador de ódio que alimenta a fome da racionalidade. É o que nos leva ao inevitável fim dos tempos. Onde estão os iluminados que não perfilham estes passos? Passeiam-se crentes ou descrentes? Camuflam-se na exibição descomplexada das pequenas obras da sua vida? Têm ou terão uma aura ou halo e, quer queiram ou quer não, contribuem para o caos da sapiência que é esta espuma dos dias? Têm asas?
A histeria é que sem dúvida fala mais alto. O mundo não é assim tão inteligível e não é tão grande quanto isso; tudo é de uma pequenez incomensurável.
Admito ter vivido até hoje, como muitos, sob a promessa de a troco da felicidade eterna, viver como um imbecil feliz. O imbecil é o que não se questiona. Questiono-me sobre o Deus que não teve oportunidade ou vontade de se apresentar de forma inequívoca e inquestionável. É isto que legitima a minha liberdade mas que aumenta também exponencialmente as minhas dúvidas e questões sobre alguns dogmas; a minha deferência para com o próximo também é acrescida, o que em certas circunstâncias muito me apraz. Porventura terá tido este Deus manifestações que não vislumbrei ou reconheci...que sei eu, pessoa que não distingue uma azémola, ainda que esta voe, absorto que estou sempre em algo...
Em pequeno, aquando da minha primeira comunhão, nos momentos que precederam  este importante acto de fé, fiz a minha primeira confissão a um Padre irlandês. Confessei-lhe o que tinha feito (que fiquei a saber do pecado original) e o que não fiz (por receio de não ser igual aos pecadores normais), tudo por receio de uma réplica divina ou terrena que se remiu a troco de "avés-Marias" e "Pais-nossos". Inventei os pecados que viria a fazer porque alguem os quiz ouvir e assim submeter-me a uma ideia de ordem na terra e nos céus um pouco medievalesca para os tempos modernos.
É estranho este coadunar de hábitos, concomitante com o homem de hoje. É o homem de hoje igual ao de ontem?
Assim se obtém a paz; seguindo o "manual de maus costumes", escrito em variadas versões (o novo e o velho) que nos confundem. Poderíamos ter seguido a "Ilíada de Homero", mas não foi o caso. Há quem hoje siga o Harry Potter, ou uma carreira profissional. Seguimos o Deus que sacrificou o filho, o cordeiro, o "Agnus Dei". Transubstanciamo-lo e não lhe seguimos os passos. Todos queremos ser o Cristo, mas na hora da diferenciação somos a sua antítese, fazendo actos de contrição, carpindo e balbuciando "mea culpa, mea massima culpa" num ritual de quotidiano que os tempos já banalizaram.
Estranho mundo este. Talvez no próximo em que vier a estar, compreenda melhor a nova versão de Deus que se me apresentar.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O Halo



Alguém disse um dia que a vida é uma travessia de conhecimento. Atrevo-me a acrescentar a este brilhante raciocínio de que esta travessia ruma á morte, envolta num halo tridimensional de conhecimento, de deleite e intenso tráfego de almas que connosco se cruzam, de forma aparentemente desordenada; cruzamos, embatemos, viajamos perto e longe, por vezes até numa interminável fila, tal qual um carreiro de formigas. Aqui está o que poderá ser o insondável desígnio: esta viagem nesse conceito cósmico que é o tempo, onde as almas se transubstanciam.

Cruzei-me com uma alma dessas algures por estes dias ao descer a Avenida da Liberdade, aí a chegar ao antigo cinema Éden. Nome curioso para tão curioso encontro. Depara-se-me um indivíduo de aspecto andrajoso, talvez 60 anos, barba e cabelos longos, indumentária que o identifica claramente com um dos sem abrigo que habitam esta grande casa que é Lisboa. Corria apressadamente em jeito de jogging passeio abaixo, batendo insistentemente na barriga. Marcou passo ao meu lado e muito seriamente, de semblante preocupado, diz-me: “o senhor não está bem; o senhor não está mesmo bem…”. Repetiu a lengalenga sem que obtivesse da minha parte qualquer resposta; que dizer e a quem? Apanhou-me perturbado, este senhor! Absorto na possível resposta, sou entrecortado por nova lengalenga, desta vez dirigida a alguém que passa em sentido contrário. “o senhor também não está bem; o senhor também não está mesmo bem…”. Mais uma senhora que cruza apressada: “A senhora está bem. A senhora está mesmo bem…”.
Aqui pensei variadíssimas coisas, enquanto o homem seguia apressado o seu caminho: não me deveria inquietar; é a realidade que se está a enganar. Este homem estava bem porque decerto jejuava da fome. A transubstanciação de nada lhe vale: pode a vernacular parecença com o Cristo nada fazer: a àgua não se transformará em vinho e as pedras em pão. A substância é o que lá está: a fome – aquilo que uma coisa é. O “além” do latim “trans”, não cabe aqui. É um mistério que este Homem porventura nunca enfrentará. Digo porventura, porque no fim o halo se apagará e daí para a frente, confronto-me novamente com o insondável desígnio e o assustador vazio desse mesmíssimo halo.