terça-feira, 6 de outubro de 2009

O Halo



Alguém disse um dia que a vida é uma travessia de conhecimento. Atrevo-me a acrescentar a este brilhante raciocínio de que esta travessia ruma á morte, envolta num halo tridimensional de conhecimento, de deleite e intenso tráfego de almas que connosco se cruzam, de forma aparentemente desordenada; cruzamos, embatemos, viajamos perto e longe, por vezes até numa interminável fila, tal qual um carreiro de formigas. Aqui está o que poderá ser o insondável desígnio: esta viagem nesse conceito cósmico que é o tempo, onde as almas se transubstanciam.

Cruzei-me com uma alma dessas algures por estes dias ao descer a Avenida da Liberdade, aí a chegar ao antigo cinema Éden. Nome curioso para tão curioso encontro. Depara-se-me um indivíduo de aspecto andrajoso, talvez 60 anos, barba e cabelos longos, indumentária que o identifica claramente com um dos sem abrigo que habitam esta grande casa que é Lisboa. Corria apressadamente em jeito de jogging passeio abaixo, batendo insistentemente na barriga. Marcou passo ao meu lado e muito seriamente, de semblante preocupado, diz-me: “o senhor não está bem; o senhor não está mesmo bem…”. Repetiu a lengalenga sem que obtivesse da minha parte qualquer resposta; que dizer e a quem? Apanhou-me perturbado, este senhor! Absorto na possível resposta, sou entrecortado por nova lengalenga, desta vez dirigida a alguém que passa em sentido contrário. “o senhor também não está bem; o senhor também não está mesmo bem…”. Mais uma senhora que cruza apressada: “A senhora está bem. A senhora está mesmo bem…”.
Aqui pensei variadíssimas coisas, enquanto o homem seguia apressado o seu caminho: não me deveria inquietar; é a realidade que se está a enganar. Este homem estava bem porque decerto jejuava da fome. A transubstanciação de nada lhe vale: pode a vernacular parecença com o Cristo nada fazer: a àgua não se transformará em vinho e as pedras em pão. A substância é o que lá está: a fome – aquilo que uma coisa é. O “além” do latim “trans”, não cabe aqui. É um mistério que este Homem porventura nunca enfrentará. Digo porventura, porque no fim o halo se apagará e daí para a frente, confronto-me novamente com o insondável desígnio e o assustador vazio desse mesmíssimo halo.

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