quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Bouillon de culture - Boião de cultura




"As ondas do mar,
vão e vêm....
As da minha banheira
tambêm"

O Regular funcionamento das instituições democráticas – parte II – Chamar os bois pelos nomes.


O 1º boi. Envergonho-me do Presidente da Republica escolhido democraticamente pelo povo. Em comum, só o gosto pelo bolo-rei. Ainda assim, julgo que não o diria publicamente, mastigando e projectando “gafanhotos”, em frases lentas e repensadas, no receio de ferir susceptibilidades ou quiçá, deliberadamente nunca se comprometer com seja o que for. É este o responsável pelo fartar de vilanagem a que esta terra foi acometida aquando dos primeiros quadros de apoio Comunitário;

O 2º boi. Vulgo: bochechas. Animal político que mete e tira socialismos da gaveta de acordo com as conveniências e interesses do momento. O inicio da precarização de tudo o que Abril já tinha dado com atraso de pelo menos 50 anos, para não ir mais atrás à inexistência de revolução industrial; essa responsabilidade cabe aos nossos antepassados Reis de Portugal, que tão bem delapidaram aquém e além-mar.
O 3º boi. Uma junta deles, com os dois abegões que supra-citei á cabeça e à cernelha. Trabalhinho perfeito nas últimas três décadas.
O esquema de alternância política hoje denominada neo-liberal e que ainda conheço pelo nome arcaico e vulgo de capitalismo selvagem, têm favorecido, quer a nível nacional, europeu e internacional, o acentuar das desigualdades. Não será necessária muita inteligência para prever que esse caminho é o da destruição do planeta. Ou pelo menos de alguns do planeta.
Todas as dividas e dividendos, tal como a vida, o amor e a morte têm com certeza uma T.A.E.G.; para aplaca-la, um pouco de “burguesismo” acessível aos miseráveis… de quem falo? Uma crescente massa de licenciados de um incrível analfabetismo funcional, de um complexo de superioridade invejável ao próprio Rasputine, cuja “burguesisse” é cultura e aculturação. São estes os quadros médios que agastam as coisas de que se fazem coisas.
Recebi um mail curioso, aqui há uns dias atrás. Uma Fundação (só o nome “Fundação” esconde-me sempre algo…), convida-me a participar num evento que visa discutir Portugal. Nome sugestivo: Fundação Lusitania. Tema:1ª Conferência da Portugalidade – Valores, estratégias e soluções. Promovido por um certo CRES (Clube de Reflexão Económico-Social) e patrocinado por uma série de instituições privadas, empresas, que por certo ao abrigo do mecenato, obtêm (dois em um) mediatismo e fazem lobby. Que raio: as esmolas nunca são anónimas; deve ser algum tipo de auto-absolvição do “euísmo”. Forte contributo para democracias musculadas, é o que é! A julgar pelas personalidades promotoras que estão visíveis; as outras…estão ocultas.
O antigo regime teve ao menos esta virtude: legitimou um 25 de Abril que hoje seria impossível, até porque, desregularia o regular funcionamento das instituições democráticas.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O Regular funcionamento das instituições democráticas.



É este o lugar-comum empregue nas três últimas décadas pelos políticos que têm ocupado o poder, depois da legitimidade imposta pelo sufrágio estar posta em causa. É o que faz a variação estatística de números frios do desemprego, do desequilíbrio da balança de transacções, das disparidades de rendimentos, do produto interno bruto, do banco alimentar contra a fome, do défice, das finanças públicas, dos atentados ao aparelho produtivo do país, do roubo legitimado por uma justiça cara, morosa e inacessível. Estaria aqui todo o dia a enumerar as causas do desastre económico e social desta minha terra, não fora a manobra de diversão mediatizada dos golpes e intrigas palacianas do quotidiano, os fait-divers sobrepostos à factualidade da causa-efeito, a fulanização da política em detrimento dos projectos e, em suma, a mediocridade das pessoas.
Disse o Fernando Pessoa que, o homem é um animal irracional. Não poderia estar mais de acordo com ele, se contextualizar estes factos com a sabuja política feita por homens; em especial, com os homens que não estão movidos por ideais ou alguma dose de utopia; que fazem da nobre actividade uma carreira política de evolução por diuturnidade; que não se abnegam pela lógica de defesa do mais fraco; que acicatados pelas novas teorias dos gurus da psicologia positiva e formados pelas mais competentes escolas de ciências politicas e sociais se transformam em comentadores de média (para não lhes chamar outra coisa). É para mim incompreensível a indecisão de voto se quiser ser honesto e pragmático, numa lógica actual de governos em maioria.
Assim vivemos 48 anos e assim viveremos num estado pouco Kantiano, de onde as minorias informadas se sobrepõem às maiorias desinformadas, tal qual o fascismo cultural de que Pier Paolo Pasolini falava.
Pois, na minha lógica, a lógica de alguma democracia resquícia da racionalidade, não deixarei de ser aquilo que sempre fui; No dia que o fizer, será porque não o terei sido nunca na realidade – parafraseando o Saramago.
Haverá uma minoria que contesta, reclama, critíca e não deixará passar impune; sobretudo, amará esta terra e este povo que tantas vezes não merece ser assim amado.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Bruma



como qualificar as palavras sabendo que dançam no palco conforme os olhos de cada um. Na passada semana, rompi o quotidiano ao fim do dia de trabalho, contrariado, participando por convite numa festa de aniversário de praia de uma criança amiga da B. Uma tenda que relembrava "Um chá no deserto". Colares de flores que me inspiraram a uma felicidade momentânea. Belo fim de dia quente, mas não asfixiante. Na altura de cantar o "parabéns-a-você", P faz o seguinte introito dedilhando na guitarra (que desconhecia saber que tão bem arpejava - a política dá estes ares...): "vamos também dedicar estes parabéns ao (...), que partiu ontém; sabes, lá no céu estão muitos anjinhos que vão tomar conta de nós, e se lhe dedicarmos também estes parabéns ele vai ficar decerto muito feliz, pois será ele próprio um anjinho".

Palavras lindas... identifica a natureza da pessoa pela sua geuinidade, facto que me comoveu particularmente.
Esta minha calma interior dos últimos dias tem-me trazido como é hábito desde sempre, bons e menos bons momentos. Esta minha calma interior tem feito com que enfrente todos estes momentos bons e adversos com uma musicalidade inaudita. Adorei a névoa que atravessei em direcção a Coruche esta madrugada, ao som do "Meddle" - Pink Floyd.
Assim, partilho-os para que não seja colocado no saco depreciativo dos seres humanos. Há seres humanos e seres humanos... mesmo os com quem não me identifico têm por vezes algo bom. Esse algo é a quantificação e a qualificação do ser. A aptência e o humor com que enfrento o algo é que pode variar de dia para dia. Aqui reside o problema, estou em crer.

Koi




Koi é a definição de carpa em japonês. Durante os anos que passo na região de Odeceixe - Alentejo Litoral, sempre me despertou a atenção uma pequena tabuleta tosca mas bonita, junto aos viveiros Vicentinos que anuncia: “we sell Koi Karps”. A tabuleta resiste anos a fio e terá sido já repintada infinitas vezes. Bem pode; anuncia a vida de um peixe que pode viver infinitamente. Existem registos de carpas Koi com 200 anos…
Dizem-me existir cerca de 100 variedades de carpas, de acordo com algumas teorias (existem teorias) descendentes de 3 linhagens iniciais. O desenvolvimento de novas linhagens é feito actualmente pelo domínio da genética.
É elegante o bailado destes especímenes. Se tomarmos em conta o treino que têm em 200 anos, as inúmeras mutações de pele perfeitamente previstas pelos estudiosos e amantes deste peixe, que inspirarão por certo as coreografias que produzem.
Um bom exemplo é a Kohaku / Goshiki. Um peixe com um padrão clássico de Kohaku (manchas vermelhas sobre um branco neve) durante cerca de 6 meses. Contudo gradualmente desenvolve cores de Goshiki (Koi com um padrão de 5 cores, vermelho, branco, preto, azul claro e azul escuro), as quais retêm durante 6 meses e posteriormente reverte outra vez para Kohaku. Extraordinário também o facto de poderem atingir 120 cm na idade adulta...
O que verá este peixe em 200 anos?

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Spaghetti Puttanesca



Querida N.

É certo que os sabores fortes (muito fortes) não são decididamente o teu forte :-)
Se pensares que vais ter amigos cá em casa daqui a 2 horas, abre uma garrafa de uma Touriga Nacional (preferência para o Douro – mais encorpado e com tons de frutos do bosque com canela que o excelente tinto das Terras do Sado); Um Parmigiano Reggiano (ou um Grana Padano) é imprescindível na mesa da cozinha, para que te inspire. Por mim, o Gorgonzola é o favorito, já sabes. Se juntares uns ramos de aipo branco e grande, tens-me ao lado a fazer as vezes de um coelho.
Não há muitos segredos para a “pasta asciutta”; fi-lo muitas vezes e tu também. Obedece ao mesmo ritual de sempre: muita agua, sal grosso (generoso) até que ferva; spaghetti de 50 cm (sabes como abrir a embalagem…); mergulhar na agua que ferve e pressiona-lo à medida que se molda a toda a panela. PROIBÍDO COLOCAR A TAMPA.
12 minutos após levantar fervura e escorrer…

A puttanesca: 3 latas de polpa de tomate com mangericão vertidas numa panela baixa, fio de azeite, bagas de pimenta, 2 dentes de alho laminados da forma meticulosa e fina (como habitualmente faço), pouco sal e 2 colheres de sopa de açúcar (é este o segredo que nos distingue de todas as desilusões que temos apanhado em pseu-italianos). 20 minutos até que lhe juntas as anchovas e as alcaparras, assim como as folhas frescas de manjericão.

Juntas 3 colheres deste molho (que fizeste com um dia de antecedência J ) ao spaghetti, bem como o parmigiano ralado. Sei que detestas esta última operação devido à condição deplorável em que a panela fica… repara que é assim que o prato ganha personalidade. Detalhes, querida. Detalhes…
Entretanto sei que, teremos de abrir mais uma garrafa. A 1ª passou do meio; os convidados tocam à porta e, sei que mal entram, os cálices estão já a ser-lhes oferecidos.

É um primo piatto…não te inquietes: o segredo principal está salvaguardado.

O Escaravelho




Prosseguia lenta e obstinada a sua marcha pela areia da duna, o pequeno escaravelho. O objectivo parecia ser o de rumar Este, fosse qual fosse o obstáculo com que se deparasse. Tarde de calor, mar e uma aparente paz perturbada pelo marulhar das ondas que para trás se inquietavam numa violência inaudita.
Permaneço deitado e acordo no momento em que o escaravelho se me depara ou vice-versa. É aqui que penso como se confundem pela sua dimensão os dois corpos ali presentes, com uma tela de fundo onde está a paisagem que o Rembrandt poderia ter pintado;
Somos então os dois parte e um fractal, a curva-monstro de infinitas características, ínfima parte de um ínfimo e infinito universo. O tempo é um conceito cósmico, isso é certo. Julgo que a ordem de grandezas também.
Num universo de contribuições em jeito de verborreia, repleto de seres sapientes e sábios, concomitantes das suas diversidades, não abonam assim em nada na prole do progresso da humanidade. Assim estou eu com a habitual postura pragmática.
Aí vai o escaravelho que me contorna numa azáfama que a mim me afogueia. Segue lento e obstinado o seu caminho.